Um dos aspectos positivos da atual poltica cambial reside no fato de ela no pretender envolver-se na defesa de uma taxa de cmbio real potencialmente insustentvel a longo prazo.

O ministro da Fazenda tem dito, com frequncia, que o compromisso com o "cmbio estvel" vai at dezembro. No h qualquer obrigao de interveno no mercado de cmbio, a no ser que a cotao do dlar supere um real.

Essas informaes so importantes porque o nosso comrcio exterior est longe de apresentar resultados satisfatrios. Entre 1988 e 1993, com um Produto Interno Bruto revelando um crescimento mdio da ordem de 0,8% e uma ampla capacidade ociosa no setor industrial, nossas exportaes cresceram a uma taxa de apenas 2,8% ao ano, enquanto as exportaes mundiais cresciam a 6,2% ao ano. Nossa participao nas exportaes mundiais caram de 1,2% para 1% no perodo.

Por outro lado, as importaes, graas  desburocratizao,  eliminao de barreiras no-tarifrias e  dramtica reduo tarifria, cresceram  taxa mdia anual de 12%. Nossa participao nas importaes mundiais passaram de 0,6% para 0,8%, forando um amplo aumento da produtividade e da qualidade da produo nacional para enfrentar a competio externa.

O saldo exagerado da balana comercial foi reduzido de 19,2 bilhes de dlares, em 1988, para 13,1 bilhes, em 1993. A situao do balano de transaes correntes no , entretanto, to brilhante como se quer fazer crer.

Nos ltimos seis anos (1988-1993) tivemos um saldo positivo em transaes correntes da ordem de 6,7 bilhes de dlares, praticamente construdo pelas remessas unilaterais de brasileiros que esto trabalhando no exterior e que atingiram a 6,4 bilhes de dlares no perodo. Sem essas remessas, o Brasil teria registrado equilbrio nas transaes correntes ao longo dos ltimos seis anos.

A fantstica acumulao de reservas internacionais (no conceito de caixa) nos ltimos 29 meses (janeiro de 1992 a maio de 1994) da ordem de 30 bilhes de dlares deveu-se praticamente ao movimento de capitais estimulado pela maior taxa de juro real de que se tem notcia no mundo civilizado.

Ela foi financiada por emisses de papel-moeda e pelo crescimento da dvida interna, num movimento de auto-reforo: juro real estratosfrico atrai capital externo, o que aumenta a dvida interna e exige juro real ainda mais alto para induzir os agentes a ret-la em suas mos. Tudo isso  custa da manuteno de ampla capacidade ociosa e desemprego para milhes de brasileiros...

O que acontecer quando os juros tiverem que diminuir? Provavelmente teremos no mercado de bens e servios um aumento do nvel de atividade (o que  desejvel), que retirar um dos estmulos s exportaes e elevar o nvel das importaes (o que tambm  saudvel). E no mercado financeiro uma reduo do fluxo de entrada.

S ento saberemos se manipular a taxa de cmbio nominal pelo diferencial de juros interno e externo e esperar que a taxa de cmbio real se ajuste pela reduo dos preos internos foi uma aposta sustentvel. Mas no ser a hiptese implcita nesse modelo (flexibilidade dos preos para baixo) um pouco extravagante?
